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Rádio ZIM

01 – Amágua (Vou Beber)
  1. 1. 01 – Amágua (Vou Beber)
  2. 2. 02 – Vez Em Quando
  3. 3. 03 – Casas Vazias
  4. 4. 04 – Honra Ao Mérito
  5. 5. 05 – Nação Itamar
  6. 6. 06 – Sangue Bom
  7. 7. 07 – Descendo Baixo
  8. 8. 08 – Então Tá
  9. 9. 09 – Duas Luas
  10. 10. 10 – Falou Bicho
  11. 11. 11 – Complô
  12. 12. 12 – Homem Nu

HOMEM NU - CAPA

nu

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ZIMBHER, GAUCHE DA MÚSICA

Zimbher é um cantor/compositor de muitas facetas. Brasiliense de sangue nordestino e radicado já há muito tempo em São Paulo, sua música é um caleidoscópio que reflete os vários matizes de sua rica vivência – ecos de sua origem (e de seu exílio também). Há algo de dramático no seu canto e na sua composição, rumores sutis de cabaré e tango, fagulhas de estética kitsch e/ou freak – Kurt Weill da SQS, Almodóvar cancionista, Gardel do Butantã.

Neste novo disco, Zimbher/Zelig emula – intuitivamente, não de forma calculada – autores que admira e cultua, referências de sua memória afetiva generosa, pois antes de ser o autor inspirado que é, o homem é um apaixonado pela música popular em todas as suas vertentes. Assim é que ele canta a pobreza e o abandono em “Honra ao Mérito”, com a mesma ternura doída de um Adoniran, ou de um Tom Zé quem sabe; canta brejeiramente, com inflexão caipira genuína, as dores de viver em “Am’água”; em “Vez em Quando”, ele respira os ares roqueiros setentistas a la Sá, Rodrix e Guarabyra, como que perdidos na doida Paulicéia; zanza pela brisa jamaicana do ska em “Sangue Bom”; passeia aqui e ali pelo legado poético/sardônico e também melódico de Arrigo, Tetê e Itamar, como em “Descendo Baixo”e “Nação Itamar”, em que homenageia o próprio Nego Dito num batuque pop refinadíssimo.

Percebam que falei “emular” – não confundir com “imitar”. Zimbher tem voz própria e não é de hoje. Mas vem aprimorando a própria dicção ao longo dos anos para agora chegar ao seu ápice como intérprete/melodista/poeta neste quarto disco. Poeta que se revela ora suave ora contundente, às vezes denso, às vezes leve, mas nunca raso ou banal. Poeta que destila versos impactantes e belos como “santo suplício e seu sócio silêncio / sósias de nenhum lugar” (em “Casas Vazias”) ou provocações de fino trato como “e aí, barão, homem do ano / vais amainar vosso consumo / ou achas que quando ruírem altiplanos / não vai cair tua reserva no Fasano?” (em “Então Tá”).

Em “Descendo Baixo”, ele canta com vigor rock’n’roll e um lirismo que flana entre a acidez e a doçura: “Tava descendo alto o Baixo Augusta … / trombei um truta lá da Barra Funda …/ o cara então me disse uma coisa / forte, incomum, insã, capciosa / disse ‘mano, sabe o que mais importa / mais que dinheiro, fama, ação, garotas… / é perceber pronde o meu peito aponta … / é ser a minha principal aposta”’.

Zimbher é também Carlos, como o poeta grande. Que assim seja então, Carlos. Seja sua aposta, gauche na vida e na música. Seu som vale a pena – e as penas de todos nós. Os amantes da música brasileira vão descobrir – mais cedo ou mais tarde, estou certo – a estranha beleza de sua poesia e a bela estranheza de sua música.

Zeca Baleiro
(são paulo, agosto de 2014)